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Orçamento empresarial 2027: guia prático para PMEs

O orçamento empresarial 2027 pede premissas novas: CBS cobrada de fato, fim do regime de caixa no Simples, salário mínimo previsto e juros altos. Veja o passo a passo para montar receitas, custos, cenários e caixa mês a mês.

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Augusto Benelli

17 de outubro de 2026

11 min de leitura 2 visualizações
Orçamento empresarial 2027: guia prático para PMEs

Outubro é o mês em que muita PME percebe que o ano seguinte já começou. Os clientes grandes pedem proposta para 2027, o contador fala de reforma tributária, o banco oferece renovar a linha de crédito e o sócio ainda não sabe quanto pode gastar em janeiro. O orçamento empresarial 2027 é o documento que transforma essas conversas soltas em números que a empresa consegue acompanhar mês a mês.

E 2027 não é um ano qualquer: é o primeiro com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS, tributo federal sobre o consumo que substitui PIS e Cofins) cobrada de verdade, com PIS e Cofins extintos, com o fim do regime de caixa no Simples Nacional e, pelo cenário de outubro de 2026, com juros ainda altos. Um orçamento copiado do ano anterior com “mais 10%” não dá conta disso.

A seguir, um passo a passo prático para montar o orçamento da sua PME, das premissas ao caixa mensal, sem planilha de 40 abas.

Por que o orçamento de 2027 pede mais cuidado

Três mudanças pesam diretamente nas contas do ano que vem:

  • Juros. A meta da Selic (taxa básica de juros) está em 13,75% ao ano desde 17/09/2026, depois de uma sequência de cortes ao longo do ano. O Copom ainda se reúne em 3 e 4 de novembro e em 8 e 9 de dezembro. Para a PME, isso significa que capital de giro, antecipação de recebíveis e financiamentos continuam caros, e que cada mês de caixa negativo custa juros.
  • Pessoas. O Projeto de Lei Orçamentária de 2027 prevê salário mínimo de R$ 1.741 a partir de janeiro, ante R$ 1.621 em 2026. É uma estimativa: o valor final depende do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) até novembro e sai por decreto. Pisos de categoria seguem as convenções coletivas, que costumam ter datas-base próprias.
  • Tributos sobre consumo. Em 2027 a CBS passa a ser cobrada, PIS e Cofins deixam de existir e o IPI fica zerado para a maior parte dos produtos (com exceção ligada à Zona Franca de Manaus). O Imposto sobre Bens e Serviços (IBS, tributo de estados e municípios sobre o consumo) segue com alíquota simbólica de 0,1% em 2027 e 2028; a redução gradual de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS, imposto estadual) e Imposto Sobre Serviços (ISS, imposto municipal) está prevista para 2029 a 2032.

Nenhuma dessas mudanças, sozinha, quebra uma empresa organizada. Juntas, mexem em preço, margem e calendário de pagamentos, e por isso precisam entrar no orçamento como premissas explícitas.

O que já se sabe sobre a CBS em 2027 (e o que ainda falta)

Pela LC 214/2025, a alíquota de referência da CBS para 2027 será fixada por resolução do Senado, com base em cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2026 os prazos foram prorrogados: o TCU tem até 30/10/2026 para enviar os cálculos e o Senado, até 15/12/2026 para fixar a alíquota. Em 2027 e 2028, a CBS efetiva será a alíquota fixada reduzida em 0,1 ponto percentual.

Na prática, você vai fechar boa parte do orçamento antes de saber a alíquota oficial. A saída é trabalhar com uma faixa de alíquota em cenários (veja o passo 6) e revisar a premissa assim que o Senado publicar a resolução.

O Imposto Seletivo também está previsto a partir de 2027, mas só pode ser cobrado depois que uma lei ordinária fixar as alíquotas. Se a sua empresa vende produtos potencialmente atingidos (bebidas açucaradas, por exemplo), acompanhe com o seu contador.

Simples Nacional: duas mudanças que afetam o caixa de 2027

Se a sua empresa é do Simples, há dois pontos que não podem ficar fora do orçamento:

  1. Fim do regime de caixa. A partir de 1º/01/2027, o Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS, a guia única do Simples) passa a ser calculado sobre a receita auferida, reconhecida em regra na emissão do documento fiscal, e não mais sobre o que foi recebido (art. 517 da LC 214/2025 e Resolução CGSN 190/2026). Quem vende a prazo vai recolher o tributo antes de receber. Há ainda uma leitura conservadora de que valores faturados em 2026 e não recebidos até 31/12 entrem na apuração de dezembro de 2026. Confirme o tratamento com o seu contador antes de fechar o caixa de janeiro.
  2. Simples Híbrido. Até 30/10/2026, a empresa do Simples pode optar por apurar IBS e CBS pelo regime regular no primeiro semestre de 2027. A escolha muda o crédito do seu cliente PJ, o preço e o caixa. Explicamos a decisão no post sobre o Simples Híbrido.

Passo a passo do orçamento empresarial 2027

1. Defina calendário, responsáveis e nível de detalhe

Antes de abrir a planilha, decida quem participa (sócios, comercial, operação, financeiro, contador), quando cada parte fica pronta e em que nível o orçamento será feito: por mês, por linha de receita e por centro de custo. Um calendário possível: premissas até o fim de outubro, receitas e custos em novembro, aprovação na primeira quinzena de dezembro, revisão da premissa de CBS depois da resolução do Senado.

2. Escreva as premissas antes dos números

Liste em uma página: inflação de referência, reajuste de preço por linha, reajuste salarial e salário mínimo previsto, juros considerados para dívidas e aplicações, alíquota de CBS em cada cenário, regime tributário e prazos médios de recebimento e pagamento. Premissa escrita evita a discussão “de onde saiu esse número?” em março.

3. Projete a receita por linha, cliente e mês

Parta do realizado de 2026 (de preferência os últimos 12 meses), separe por linha de produto ou serviço e aplique sazonalidade mês a mês. Para clientes relevantes, projete individualmente: contratos que vencem, reajustes previstos e propostas em negociação. Evite somar “pipeline” como receita certa.

4. Separe custos variáveis e calcule a margem de contribuição

Custo da Mercadoria Vendida (CMV, quanto custaram os itens que foram vendidos), insumos, comissões, fretes, taxas de cartão e tributos sobre a venda variam com o faturamento. Ao orçar cada linha de receita, calcule a margem de contribuição (o que sobra da receita depois dos custos variáveis, para pagar os custos fixos e gerar lucro) (receita menos custos variáveis). É ela que mostra se o crescimento planejado paga a estrutura. Se ainda não tem essa visão, o post sobre DRE gerencial x DRE contábil mostra como separar.

5. Orce despesas fixas e pessoas com lupa

Revise cada despesa fixa como se fosse contratá-la de novo: aluguel e reajuste do contrato, sistemas, serviços terceirizados, marketing. Na folha, inclua encargos, benefícios, 13º e férias distribuídos mês a mês. O 13º costuma ser o grande susto de novembro e dezembro; vale provisionar desde janeiro, um pouco a cada mês.

6. Monte três cenários

  • Base: receita conforme premissas, CBS na alíquota que o seu contador considerar mais provável.
  • Conservador: receita menor (por exemplo, sem os contratos novos), alíquota de CBS no topo da faixa e prazo médio de recebimento maior.
  • Otimista: só para saber até onde a estrutura aguenta crescer sem novo capital.

O objetivo não é acertar o futuro, e sim saber, com antecedência, o que você faria em cada cenário: segurar contratação, renegociar prazo com fornecedor, adiar investimento ou buscar crédito.

7. Converta a DRE orçada em fluxo de caixa mensal

Este é o passo mais esquecido. Lucro orçado não paga boleto: o caixa depende de quando você recebe, quando paga e quando o tributo vence. Leve cada linha para o mês em que o dinheiro entra ou sai, considerando prazos médios, parcelamentos, tributos (com a nova regra do DAS, se for do Simples), investimentos e parcelas de empréstimos. Se o caixa projetado fica negativo em algum mês, o orçamento já mostrou a necessidade de capital de giro. O cálculo está detalhado em capital de giro: como calcular a necessidade.

8. Aprove e defina o ritual de acompanhamento

O orçamento aprovado só vira referência para a empresa se for comparado com o realizado. Defina uma data fixa no mês para a comparação orçado x realizado, quem explica os desvios e qual desvio exige ação (por exemplo, receita mais de 10% abaixo do orçado por dois meses seguidos). Revisões trimestrais permitem ajustar o ano sem reescrever tudo.

Exemplo ilustrativo: o efeito do fim do regime de caixa

Exemplo hipotético, não é caso real nem referência de mercado (benchmark): uma distribuidora do Simples fatura R$ 200 mil por mês, recebe em média 60 dias depois da venda e tem alíquota efetiva de 9% no DAS.

  • Em 2026, no regime de caixa: o DAS de cada mês incide sobre o que foi recebido. O tributo acompanha a entrada de dinheiro.
  • Em 2027, por competência: o DAS de janeiro, pago em fevereiro, incide sobre os R$ 200 mil faturados em janeiro, que só entram no caixa em março. São cerca de R$ 18 mil pagos antes de receber.
  • Na virada: se prevalecer a leitura conservadora sobre o saldo faturado e não recebido em 31/12/2026, o DAS de dezembro, com vencimento em janeiro, pode incluir dois meses de vendas a receber, algo próximo de R$ 36 mil a mais em um único mês.

Sem o orçamento de caixa, a empresa descobre isso em janeiro. Com ele, decide em outubro se ajusta prazos, reforça a reserva ou contrata uma linha de crédito com antecedência.

Erros comuns no orçamento de PME

  • Copiar o ano anterior com um percentual linear de reajuste.
  • Orçar só a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE, o relatório que mostra receitas, custos e lucro do período) e esquecer o fluxo de caixa mensal.
  • Tratar a alíquota da CBS como número fechado antes da resolução do Senado.
  • Ignorar o 13º, as férias e o reajuste das convenções coletivas.
  • Aprovar o orçamento e não comparar com o realizado até junho.

Se você já tinha uma rotina de planejamento anual, ela continua válida; o post sobre planejamento financeiro anual traz a metodologia geral. O que muda em 2027 são as premissas.

Exemplo numérico: três cenários lado a lado

Exemplo hipotético, não é caso real nem referência de mercado (benchmark). Uma distribuidora do Simples tem receita-base de R$ 200 mil por mês. Veja como três premissas mudam o dinheiro parado em contas a receber (receita mensal × prazo médio de recebimento ÷ 30):

PremissaConservadorBaseOtimista
Receita mensalR$ 170 mil (sem os contratos novos)R$ 200 milR$ 230 mil
Prazo médio de recebimento75 dias60 dias50 dias
Dinheiro preso em contas a receberR$ 425 milR$ 400 milR$ 383 mil
DAS por competência (9% da receita)R$ 15,3 milR$ 18 milR$ 20,7 mil
Alíquota de CBS usadatopo da faixa do contadorvalor mais provávelvalor mais provável

Repare que o cenário conservador tem menos receita e mais dinheiro preso: prazo maior de recebimento pesa mais do que a queda de vendas. É esse tipo de leitura que o orçamento precisa trazer antes de janeiro.

Planilha mínima: as colunas que não podem faltar

  1. Linha de receita (produto, serviço ou cliente relevante) e mês.
  2. Receita bruta e deduções (tributos sobre a venda, devoluções).
  3. Custos variáveis e margem de contribuição em reais e em percentual.
  4. Despesas fixas por centro de custo, com o mês de cada reajuste.
  5. Prazos de recebimento e de pagamento para levar o resultado ao caixa.
  6. Saldo de caixa no fim do mês, com o mínimo que você quer manter.

Para provisionar o 13º mês a mês, veja o post sobre 13º salário e fluxo de caixa; para o controle diário depois do orçamento aprovado, o guia de fluxo de caixa para PMEs.

Perguntas frequentes

Quando a PME deve começar o orçamento de 2027?

O ideal é começar em outubro, com as premissas, e aprovar até meados de dezembro. Assim janeiro começa com metas, limites de gasto e caixa projetado definidos.

Como orçar sem saber a alíquota oficial da CBS?

Trabalhe com cenários: uma alíquota provável no cenário base e outra mais alta no conservador, definidas com o seu contador. Quando o Senado fixar a alíquota de referência, atualize a premissa.

A minha empresa é do Simples. A CBS muda alguma coisa para mim?

O DAS continua, mas a composição interna muda, o regime de caixa deixa de existir em 2027 e há a opção pelo Simples Híbrido. O enquadramento é decisão a tomar com o contador; o orçamento precisa refletir a escolha.

Qual a diferença entre orçamento e fluxo de caixa projetado?

O orçamento mostra receitas, custos e resultado planejados por competência. O fluxo de caixa projetado mostra quando o dinheiro entra e sai. Um bom orçamento tem os dois.

Com que frequência devo revisar o orçamento?

Compare orçado e realizado todo mês e faça revisões formais a cada trimestre ou quando uma premissa relevante mudar, como juros, alíquota ou um contrato grande.

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Se você quer começar 2027 com orçamento, cenários e caixa mensal em uma visão que o sócio entende, fale com a BFinance. Uma conversa ajuda a entender o momento da sua empresa e o que faz sentido terceirizar na rotina financeira.

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Escrito por

Augusto Benelli

Especialista em BPO financeiro e gestão empresarial. A BFinance nasceu com a missão de democratizar o acesso à gestão financeira de qualidade para PMEs e clínicas no Brasil.

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